domingo, 8 de março de 2015

Afinal, o que querem as mulheres?


A frase marcante de Sigmund Freud, "Afinal, o que querem as mulheres"?, amanheceu ecoando em meus ouvidos. A pergunta formulada pelo pai da psicanálise no século XIX, após trinta anos de estudos sobre a alma feminina, merece ser respondida por uma mulher. Atrevo-me a responder-lhe hoje, com um pouco de atraso, mas com o respaldo de uma história inegável, no dia em que todos os olhares e discursos midiáticos se voltam para nós... Tão estupidamente aviltadas pelo sexo oposto, que sempre se opôs a nos reconhecer como sua igual. Castigadas que fomos pela maldição de Eva, nos metamorfosearam em serpentes traidoras, malignas, bruxas sedutoras dotadas de uma concupiscência desenfreada, ameaçando a santidade masculina. Freud facilmente identificaria ou identificou (mesmo que o machismo imperante de seu tempo não o deixasse admitir) nesse comportamento um terrível medo diante do desconhecido, da outra face revelada. E que face! Bela, delicada, sensível, atraente, sedutora... E ao mesmo tempo forte, dominadora, a que sangra e não morre, que concebe a vida através de um ato eminente de extremo prazer. A fortaleza masculina sucumbiu diante desse fenômeno. Sem saber como lidar com sua própria fragilidade e incompletude, o homem não vê outra saída senão subjugá-la aos seus desejos e caprichos. E assim a dominação covarde ocorreu e ainda ocorre em dias atuais. Estatísticas indicam o crescimento alarmante de agressões físicas e morais contra as mulheres. Salários inferiores são pagos às mulheres em grandes empresas, mesmo estas desempenhando as mesmas funções que o homem, em alguns casos até com melhores desempenhos comprovados. Somos julgadas pela aparência naturalmente sensual e nos acusam de atiçar a libido masculina com roupas impróprias. Ainda nos culpam por sermos mulheres.
Então, Freud, passadas décadas e décadas de sua pergunta um tanto capciosa, te digo que nós queremos...

Que eles não tenham medo de nós, pois não mordemos, a não ser em momentos oportunos e desejosos;
Queremos nos vestir da forma como bem entendermos, sem, com isso, sermos apontadas como prostitutas;
Queremos que reconheçam nossa competência profissional que, em alguns setores, supera a deles e que nos remunerem à altura do que merecemos;
Queremos rosas, bombons, mimos, declarações de amor explícitas, mas também o direito de falarmos palavrão na mesa de um bar (por mais feio que possa parecer, é uma escolha de comportamento);
Queremos o direito ao prazer pelo prazer e o fim da "síndrome da Fórmula 1", por favor menos egoísmo sexual;
Queremos o direito de escolhermos não sermos as rainhas do lar, pois podemos reinar em muitos outros departamentos;
Queremos que parem de tentar criar manuais instrucionais de como entender a identidade feminina. Esqueçam! Nunca conseguirão!
Queremos que nos vejam muito além da nossa porção glútea, pois a nossa inteligência também é sedutora;
Queremos que sejam mais observadores. Percebam e comentem quando cortarmos os cabelos, de preferência no mesmo dia, e não uma semana depois;
Queremos que tenham perspicácia para identificarem quando um NÃO representa um SIM. Não somos nada óbvias.
Queremos que nos surpreendam, pois detestamos monotonia conjugal;
Queremos que vocês se cuidem fisicamente, mas nada do exagero metrossexual. Há certas características masculinas que devem ser preservadas em prol da exaltação do tesão feminino;
Queremos, queremos tanto... Mas, acima de tudo queremos e exigimos RESPEITO. Nos observem e nos descubram um pouco mais à cada dia!



sábado, 1 de novembro de 2014

A evacuação oral de Diogo Mainardi

                                                 



Sempre achei esse tal de Mainardi um completo babaca. Desde os tempos em que esteve como colunista da famigerada revista Veja, não fez outra coisa senão distribuir impropérios a torto e a direito, se achando no direito de evacuar sentenças torpes por todas as linhas dos textos que escrevia. De repente, quer dizer, bem tarde, desapareceu. Pelo menos não fora mais visto no meu campo de visão. Mas como pessoas indesejáveis sempre ressurgem nos momentos mais impróprios, ele dá o ar de sua (des) graça para endossar o coro dos discursos xenófobos e preconceituosos proferidos contra os nordestinos, pós-eleição presidencial.

Confesso que até então, tudo o que havia lido nas redes sociais a esse respeito, era como se não me dissesse respeito. Achava desnecessário revidar discursos tão ignorantes, de gente imatura e intolerante politicamente. Não valia a pena levar a sério. Esperava que tudo se acalmasse, logo tivéssemos o resultado das urnas apuradas e o nome do novo (a) presidente (a) fosse anunciado. A nossa gente civilizada mostraria o seu valor, pensava ingenuamente. Que nada! As agressões se multiplicaram, se intensificaram e se personificaram. Agressões e insultos dessa vez não partiam apenas de adolescentes com pensamentos ideológicos inflamados, militantes partidários redatores de facebook, mas de gente com notoriedade nacional, a exemplo de desportistas, artistas e outros tantos 'intelectualizados', com voz e vez para destilar um ódio sem precedentes na história desse país, dentre estes, Diogo Mainardi. Dessa vez, a evacuação foi oral, na tela da Globo News, para milhões de expectadores. Sugiro o uso de máscaras capazes de filtrar a repugnância provocada pelo uso abusivo de suas palavras mal ditas.
Caso prefiram, assistam ao vídeo AQUI.

“Essa eleição é a prova de que o Brasil ficou no passado. Não é Bolsa Família, não é marquetagem. O Nordeste sempre foi retrógrado, sempre foi governista, sempre foi bovino, sempre foi subalterno durante a ditadura militar, depois com o reinado do PFL e agora com o PT. É uma região atrasada, pouco educada, pouco construída, que tem uma grande dificuldade para se modernizar na linguagem. A imprensa livre só existe da metade do Brasil para baixo. Tudo que representa a modernidade está do outro lado”, atacou.

Acho chato ter que ficar justificando a grandeza do nosso Nordeste, até porque muitos já o fizeram, e muito bem. Já falaram de nosso potencial turístico, que reúne uma parte da natureza mais exuberante do mundo, do talento abrangente de nossos artistas cênicos, cantores e escritores, da nossa riqueza econômica em tantos segmentos, da originalidade da nossa linguagem, do nosso carnaval exportação, e até das delícias de nossa culinária. Da nossa gente cordial, receptiva, forte, resistente, de nossa bela história. Mas parece que não basta. É preciso mais. É preciso dizer a um Mainardi desses, que não tem formação acadêmica nenhuma, que não se especializou em nada, que é mais cidadão italiano do que propriamente brasileiro, que desconhece a nossa história de luta e resistência política, que VÁ SE INFORMAR! Vá crescer como gente, primeiramente, tomando como exemplo a sua filha portadora de paralisia cerebral, que, como todos os especiais, tem muito a lhe ensinar. Vá se despir de preconceitos, da arrogância que sempre lhe foi peculiar, da síndrome da superioridade burguesa. Feito isso, dê uma olhadinha (que olhadinha, debruce-se sobre eles!) nos livros de História do Brasil, passeie também pela Sociolinguística, para entender as variantes da língua como decorrentes da relação entre linguagem e cultura, tendo como principal referência a obra "Preconceito Linguístico: o que é, como se faz", do linguista Marcos Bagno. 

Feito isso, você que, inicialmente, falava tanto sobre cultura enquanto colunista, e demonstra um conhecimento tão raso sobre a mesma, reveja o cenário musical do nosso país regido pela ditadura militar, e irá encontrar as composições de protesto de Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas e verá que eles são... Than, than, than: nordestinos. Ah, e você que se autodenomina também como roteirista de cinema, te pergunto: conhece Glauber Rocha? Uma síntese dele pra você: baiano e, portanto, nordestino, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela ditadura militar, como elemento subversivo. Inspire-se nele.

Ah, e a Presidenta Dilma Rousseff, reeleita pela maioria do povo brasileiro (não apenas pelos nordestinos), não com minha ajuda, pois assim como muitos, estou insatisfeita com seu governo, atuou na luta armada contra a ditadura militar. Merece nosso respeito, primeiro por ser a nossa representante legítima, e depois por ter a coragem de fazer, na prática, o que muitos barbados só fazem na esfera de um discurso covarde. Foi perseguida, sofreu tortura, juntamente com tantos outros, para que tivéssemos nossos direitos políticos assegurados. Para que hoje pudéssemos dizer abertamente, sem o uso de metáforas, 'afasta de mim esse CALE-SE'!

Fiquei a pensar o que diria Ariano Suassuna, produtor e disseminador da cultura nordestina, ao saber dessas suas declarações, ele que foi o maior defensor dessa cultura, de nossa arte, de nossa gente... Melhor mesmo não sabê-las. No mais, certamente chegará o dia em que alguém pronunciará, em momento oportuno, junto à sua lápide, um dos textos mais conhecidos e incontestáveis produzido por um nordestino:



Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.
(Ariano Suassuna, em: O Auto da Compadecida)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A política e o pensamento divergente


Estamos declaradamente em guerra, incitados pela defesa de uma suposta ideologia político-partidária. Nas redes sociais ou nas conversas de bar, eclodem comportamentos agressivos, insultos morais e pessoais, homofobia, intolerância religiosa e política imperam nos discursos mais sórdidos proferidos por candidatos e seus seguidores. Não há limites, para os que consideram estar exercendo o direito constituído à “liberdade de expressão”.
Recentemente, acometidos por um acesso de ódio perante o resultado das urnas na disputa presidencial em 1° turno, em um ato de desrespeito ao exercício da democracia, surge em falas preconceituosas e arrogantes a ideia separatista de dividir o país geograficamente. Sul e sudeste demonstraram (embora por um número irrisório de pessoas, mas bem ancoradas pela mídia e por partidos políticos oportunistas), todo o seu asco, por nós, nordestinos. Não é novidade que o nosso sotaque, os nossos dialetos, os nossos traços culturais tão originais, e até a nossa formação climática sempre foram motivo de chacota por um grupo de pessoas que se julga elitista e, portanto, superior em todas as características destacadas acima.
Foi o que bastou para consolidar ainda mais a intolerância ao pensamento divergente. Se nunca existirá, de fato, a tal separação geográfica aclamada por alguns, ainda assim estamos divididos. Fomos fracionados ideologicamente nessa disputa eleitoral. Somos metade de um todo egoísta e intelectualmente vaidoso. Somos inteligências reduzidas em busca da comprovação de uma subverdade tendenciosa.
É claro que temos direito e somos impulsionados a escolher o lado que, de acordo às nossas crenças e descrenças, completa um quadro representativo das propostas que mais nos seduzem e com as quais nos identificamos. Até aí, tudo certo. Um time não joga sozinho. Precisa de um adversário para que a bola role. Com isso, torcidas se (in) formam. Porém, diferentemente, das torcidas que lotam os estádios de futebol em nosso país, e das quais temos retirado péssimos exemplos de conduta social e moral, não podemos agir de forma passional, agressiva e discriminatória na defesa do “time do coração”.
Por que omitir uma jogada suja, digna de um cartão vermelho, só para não mudar de time ou simplesmente reconhecer suas faltas? Em nome de uma fidelidade partidária injustificável, muitos eleitores se tornam cúmplices de um sistema político corrompido e aviltante. Ao invés de estabelecerem um diálogo contra-argumentativo em prol do bem comum e da transformação das estruturas políticas ultrapassadas, preferem insultar, ignorar fatos óbvios, amplamente divulgados pelos diversos meios de comunicação existentes. E por falar em meios de comunicação, corroboro que muitos são inescrupulosamente tendenciosos, em sua essência. Estão a serviço dos mesmos interesses escusos de muitos políticos aos quais defendemos, inclusive. Porém, sabemos que nenhum discurso é neutro. Ele é carregado de ideologias, restando-nos identificar aquelas que estão a favor da opressão ou da libertação das consciências. Tomando-se como base as duas concepções durkheimianas de consciência: a coletiva e a individual.
Ademais, Huberto Eco diz, sabiamente, que não se pode pensar em sociedade moderna sem os meios de comunicação de massa. E atribui aos intelectuais e ao cidadão comum (grifo meu) o papel e a responsabilidade de fiscalizá-los. Entretanto, essa fiscalização imparcial precisa alcançar também os nossos políticos. Não podemos sacralizá-los ao lhes declarar nosso voto. Devemos sim, ficar vigilante, cobrar-lhes o cumprimento de suas promessas eleitoreiras, que de forma tão atrativa nos seduzem em momento oportuno.
Deveríamos, antes de nos posicionarmos a favor ou contra Dilma Rousseff ou Aécio Neves, fazermos uma análise tática da atuação de ambos nas partidas políticas desenvolvidas, depois de passarmos por uma competente escola de juízes eleitorais, que nos preparassem para usar o “apito” e marcar a falta exata a cada jogada desleal. Sem medo que nosso time, ao perder pontos, fosse conduzido ao rebaixamento. Afinal, as regras são claras.



domingo, 12 de outubro de 2014

Ressurreição


Crucifixo fixo na parede
Livro sagrado empoeirado
A reza refeita repetidas vezes
Missa dominical, santificação!
Hóstia hostilizada pelo descrente
Corpo de Cristo engolido, redenção.

Logo ao lado, uma ladainha diferente
Desconstrução... Seja feita a tua vontade
Em nome de Cristo: segregação!

Pedaço do céu loteado,
Pago em suaves prestações
Quem não aceita a receita
Não terá o perdão
Diga sim, irmão!
Teu nome será escrito
No livro da salvação.

Caridade, amor fraterno, religação
Onde estão? Também foram queimados
Na Santa Inquisição?
O pão está em falta e afeta a fé
Cala-te boca, fariseu!
Anjos delatores te denunciarão.

Jeová, Buda, Maomé, sabedoria de Lao-Tsé
Deem um sermão nos filhos de Abraão
Ressurreição nas ações da humanidade!


sábado, 6 de setembro de 2014

Tempos de eleição




Em tempos de eleição...
Quem são eles, quem eles pensam que são?

Te ignoram durante quatro anos,
desconhecem teu endereço e
o preço do teu feijão.
A tua cesta básica tão cara,
teu consumo de liquidação 
não equivalem nem à gravata
que usam para compor 
seus looks de ocasião.
E para garantirem a comezaina 
retornam no tempo certo
em busca do teu aperto de mão.
E mais uma vez te cativa 
aquele sorriso "inofensivo",
um discurso bonito, que promete
melhorar tua vida, legitimado
pela coletiva falta de educação.
As promessas vãs preenchem
tua carência, e os redimem 
pela desassistência em anos de opressão.
Certificam-se que a fonte não secou
e que apesar de tudo que deixaram de fazer
ainda são capazes de manipular tua decisão.
E você pensa: "não custa nada 
dar uma ajudazinha ao doutor,
ele é tão simpático, veio de longe
só pra me dá um abraço."
E está feito o laço nessa tua distração.
Mais um mandato de desmandos,
viagens, despesas pessoais, 
até TV a cabo com canais pornôs
são pagos com teu trabalho suado.
Projetos de lei de suma importância
passam dez anos engavetados,
sob a alegação de que são muito ocupados!
Mas todos sabemos que, vergonhosamente,
seus dias no Congresso são contados.
Ora, eleitor, faça uma limpeza
no teu saneamento básico,
desinfecta o porão de tua casa!
Use a arma que temos para destituir 
os podres poderes.
Mostre tua indigNAÇÃO!

Não tenha medo, afinal...
Quem são eles, quem eles pensam que são?



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

E se eu pudesse fazer algo?




Começaria destituindo prisões. Libertaria o espelho, da ditadura da beleza. Rebelado, belo seria aquele de sentimentos bons. Ao ser questionado: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu”? Ele diria, imponente: “Diga-me quem tu és, o que fazes, como pensas, que eu te darei uma escala de valores e a tua beleza será revelada ou deformada.” A indústria da beleza decretaria falência, pela ausência de consumidor. Modelos famosos ficariam à margem, sem ter o que expor.

O dinheiro, ah o dinheiro... De rei passaria a plebeu, objeto abjeto, papel de menor valor. Não haveria, portanto, ricos e pobres, classe inferior. Privilegiados ou desfavorecidos, desigualdade de oportunidade, escolaridade, gênero, injustiças, seriam características de uma sociedade extinta e ignorada. Votar não seria obrigação. O único manda-chuva seria São Pedro que, ao ser invocado, faria gotejar a chuva tão necessária nos desertos mais áridos e desacreditados.

As religiões seriam unificadas: hinduístas, judeus, budistas, islâmicos, cristãos... Todos irmanados, religados pela fé em um Supremo Criador. Ninguém jamais mataria, guerrearia ou condenaria, em nome do seu Deus egoísta, vingativo, hipócrita e delator. As suas verdades para si bastariam. O marketing da fé não venderia mais paraísos celestiais e a guerra santa publicitária seria vencida pelo NÃO coletivo de milhões de fieis fortalecidos pelo milagre da razão. Amém, irmãos?

Seria terminantemente proibido se privar de: tomar banho em trovoadas de verão, ver o pôr-do-sol ao lado de quem se ama, assistir ao espetáculo proporcionado pela lua cheia, brincar com uma criança como criança, cantar por vergonha de desafinar, dançar por medo de pisar no pé, subir em árvore com medo de cair, rir até a barriga doer, comer delícias para não engordar, andar com os pés descalços para não se sujar, dizer a verdade para não constranger, encarar desafios por medo de perder.

A felicidade seria uma sentença, atribuída a todos que fizessem a “lição de casa”.



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Meu nome é Rádio



     Tenho convivido, ultimamente na escola, com algumas crianças portadoras de deficiências variadas, atendidas pelo AEE - Atendimento Educacional Especializado. Este é um "serviço de educação especial que identifica, elabora, e organiza recursos pedagógicos e de acessibilidade, que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específicas" (SEESP/MEC). Posso dizer, enfaticamente, que a minha cidade é uma das pioneiras na Bahia, quiçá no Brasil, onde esse trabalho é desenvolvido com excelência. As professoras que atuam na SRMF - Sala de Recursos Multifuncionais (espaço físico localizado na escola, equipado com mobiliário, materiais didáticos e pedagógicos para o atendimento dos alunos que são público alvo da Educação Especial), são extremamente capacitadas e atendem a múltiplos casos, a exemplo de: Deficiência Auditiva (DI), Paralisia Cerebral (PC), Altas Habilidades, TDH/Hiperatividade, Autismo, Discalculia, entre outros.
     O maior mérito desse trabalho é a inclusão desses alunos na Escola Regular e, consequentemente, na sociedade. Os rótulos de incapazes e anormais, adquiridos no decorrer de suas vidas, são diluídos e fica explícito que todos possuem, mesmo com as limitações oriundas de suas deficiências, habilidades e capacidade cognitiva. Definitivamente, não existe o anormal x normal, somos todos humanos, com todas as imperfeições que, originalmente, nos caracterizam. O que possuímos mesmo de grotesco é essa pretensão descabida em nos julgarmos superiores uns aos outros.
      Várias personalidades mundiais comprovam, através de seus feitos, que suas "deficiências" não atrofiaram seus talentos, sejam estes artísticos ou intelectuais. Uma das escritoras mais lidas em todo o mundo, romancista policial incomparável, perdendo em número de vendas de livros somente para a Bíblia, Agatha Chistie, pasmem, era disléxica; Einstein, mesmo desacreditado por professores e sendo motivo de chacota entre os colegas por ser também portador de dislexia, tornou-se referência mundial em inteligência; E a lista segue, contrariando os cânones de perfeição pré-estabelecidos: Darwin, Leonardo da Vinci, Van Gogh, Walt Disney (!), todos "deficientes" e, extraordinariamente eficientes.
      Recentemente, assisti ao filme Meu nome é Rádio, protagonizado pelo ator Cuba Gooding Jr., interpretando o personagem Rádio, um jovem portador de um distúrbio mental não qualificado. Rádio vivia isolado, acuado como um bichinho ameaçado pelos predadores sociais, até que um treinador de beisebol o conhece, se aproxima dele, tornando-se seu amigo e protetor. Daquele rapaz despersonalizado, que não conseguia sequer pronunciar o próprio nome, não sobrou nada. Rádio se tornou gente, com autonomia para fazer suas próprias escolhas. Ingressou na escola, aprendeu a ler e escrever, fez amigos com pessoas que se transformaram através dele e de suas atitudes beneméritas. E um pós-conceito surgiu, após a reconstrução de um pré-conceito deturpado e desumano.
         Rubem Alves, mestre causador de espantos, diz que todo ser humano é, de nascimento, um portador de deficiência física. Somente os animais são acabados e perfeitos, e nós somos inacabados e imperfeitos, portanto, precisamos pensar e criar para sobrevivermos. Nossa inteligência é filha da nossa fraqueza, diz ele. Pensamento e criatividade nascem da imperfeição. E quem há de negar que esta sim, é superior?