terça-feira, 29 de setembro de 2009


Encontro com Clarice...


Cenário bucólico, tarde de primavera, em meio ao canto dos pássaros e ao cheiro suave que exalava das flores multicoloridas daquele lugar surreal, havia uma mulher...

Sentada naquela pontezinha que lembrava uma pintura de Claude Monet, vestido longo de tecido leve e cor neutra, olhar fixo no horizonte, parecendo esperar a travessia do dia admirando o espetáculo proporcionado pelo pôr-do-sol.

__Olá! _ eu a cumprimentei sorrindo, interrompendo a sua aparente quietude. Ao passo que ela, visivelmente surpresa, responde:

__Oi...Quem é você?

Ao observá-la de perto e ao ouvir aquela voz inconfundível, pensei que seria vítima de um mal súbito, tamanha fora a emoção de estar ali face a face com ela, aquela mulher inominável que eu tanto admirava!

__Eu? Sou mais uma, entre tantas pessoas, atraída e fascinada pela sua escrita singular!

__Ah...Vejo que você me conhece! _ela disse, esboçando um meio sorriso, meramente cortês. E encorajada por essa acolhida inesperada, sentei-me ao seu lado. Não poderia perder aquela chance... Clarice Lispector bem ali ao meu lado e aparentando uma sutil predisposição à troca de algumas palavras, mesmo que limitadas, seria certamente inesquecível.

__Sim, a conheço... Através dos seus inúmeros contos e romances intimistas, conheço muito de ti, ou pelomenos até onde você se permitiu ser conhecida. Nesse momento, seu olhar, antes disperso tomou a direção do meu.

__Escrever era meu refúgio, minha autolibertação, única forma de sobreviver a todos os dias cinzentos e insípidos. Havia um peso sobre mim que me tornava extremamente cansada, profundamente cansada de existir... "E se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria todos os dias", como o disse em A Hora da Estrela.

__Entendo o peso e o cansaço... Conheço bem esses infortúnios e compartilho da sua recorrente epifania. Tenho repulsa à degeneração do mundo que me cerca e, por vezes, sinto-me como um bicho enclausurado, longe do seu habitat __ disse, começando ali uma troca de confidências jamais imaginada.

__Sempre fui mais do que os outros estavam abertos a receber, havia sobras em mim, estava sempre fora das medidas padronizadas, dos ambientes convencionais. Como saída criei o meu próprio mundo, o “ovo” onde só eu habitava _ela dizia com aquela melancolia na voz que lhe era peculiar.

__Confesso que nunca entendi muito bem essas suas metáforas referindo-se ao ovo e às galinhas _falei, na tentativa de compreendê-la no que havia de mais hermética.

__Não há o que entender, "viver ultrapassa qualquer entendimento." Nem eu mesma,às vezes, entendia o que escrevera. Eu transbordava os limites do meu próprio ser. Freqüentemente me desconhecia, necessariamente me refazia. Às vezes era, às vezes deixava de ser! Entre o ser e o não ser, o eu e o não eu, preferi a ausência material, na tentativa última de renascer para mim mesma.

__Você fala de morte?

__Sim e não! Para mim, a morte fora um bem necessário,a quebra da casca do ovo, a liberdade nunca antes alcançada e não o fim desprovido de sentido. Há quem viva morto em vida e para reviver é preciso morrer!

__Mas você não me parece feliz...

__Feliz? Eu...

Subitamente acordei com o barulho do despertador, trazendo-me de volta à vida real (?) e à frustrante constatação que tudo não passara de um sonho. Ou não?
Para sempre Clarice Lispector!
(Rosimayre Oliveira)



2 comentários:

  1. Que encontro revelador, de escritora para escritora, fiquei pensando nos minutos de silêncio da escritora Clarice, quantas reticências cheias de significação ela nos deixa, e vc reproduz isso no conto. Tenho que dizer: a parte do "ovo" com a célebre: "Não se preocupe em entender..." ficou muito expressivo. Fico na espera de mais um conto, bjs!!!!

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  2. Nossa, Rosi! Que isso, menina? Fascinante! Meu Deus isso foi muito real, com certeza! Se um sonho ou se não, era Clarice! Fiquei extasiado!

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