quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Vida louca vida, vida breve!






Ah, eu preciso te falar...

Do quanto você marcou a minha vida, do quanto existe muito de você em mim. Da sua influência positiva na minha formação ideológica e em ações circunstanciais.

Preciso te falar...

O quanto era bom ficarmos até tarde da noite sentadas no passeio da minha casa, filosofando e psicologizando as ideias do genial e inesquecível Renato Russo, interrompidas apenas quando meu avô ordenava: “Venha dormir Rosimayre!”, incomodado com a nossa tagarelice fora de hora.

Ele não entendia que precisávamos tanto daqueles momentos... Acreditávamos, assim como nossos ídolos, que poderíamos mudar o mundo. A nossa indignação perante as injustiças sociais e ao descaso aos marginalizados nos tornavam cúmplices.

Sabia que eu sentia ciúmes de você? É, eu sentia. Eu queria amizade exclusiva. Queria a sua atenção e o seu amor só para mim. Só depois do amadurecimento natural que a vida nos traz é que percebi o tamanho do meu egoísmo e da grandiosidade dos seus sentimentos, que quanto mais eram divididos, tanto mais se multiplicavam.

Preciso te falar...

Do misto de euforia e frustração que senti quando passei no vestibular e você não. Como pode?! Eu me perguntava, inconformada! Você, tão inteligente, tão preparada... Esperei um ano, para enfim, te dar o abraço por aquela conquista tão almejada. Estávamos na faculdade, novos horizontes se abriram em nossas vidas. Novas ideias, novos conceitos, novos conhecimentos, novas possibilidades...

Você, como já era esperado, se tornou uma excelente profissional, competente e admirada por todos. Historiadora consciente da sua missão enquanto educadora e formadora de opinião. Tenha certeza que os seus discursos proferidos aos discentes com propósitos de renovação e transformação social não foram em vão!

Preciso te falar...

Que, embora ultimamente não nos víssemos com tanta frequência, devido aos afazeres cotidianos, a minha intensa amizade por você em nada mudou, pois tínhamos muita afinidade e, segundo Artur da Távola, “Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar.”

Ah, eu preciso te falar...

Que gritei, esbravejei, chorei descontroladamente e até questionei a existência de Deus, quando soube da tua partida. Vida louca vida, vida breve... Continuo sem entender por que Ele permitiu essa atrocidade. É, eu sei, me falta a sabedoria que você possuía... Para entender por que aquele abraço atrasado que te dei pela passagem do teu aniversário fora o último.

Escrever foi a forma que encontrei de me comunicar com você, que tantas vezes elogiou minha escrita e elevou minha autoestima às alturas. Saiba que você foi grande... Grande filha, irmã, esposa, mãe, educadora, amiga, grande SER HUMANO!
Kêu, pequeno fora apenas o teu apelido carinhoso!
À você, o meu amor eterno!

Mayre – 23 de outubro de 2009 (Dia cinzento e amargo)

2 comentários:

  1. Agora podendo respirar um pouco, mais ainda consternado pelo que aconteceu,gostaria de lhe confessar uma coisa Meire:

    Não sei se vc lembra-se de um livro de português, que no final de cada capitulo tem um tema para uma proposta de redação, que autrora já eram muito boas.

    Hoje ele está bem velinho, mais bem guardado.
    No mais, Kêu foi minha principal fonte de orientação ideologica, de defensor de causas nobres e contestador das injustiças sociais. Para sempre carregarei esse legado, mais precioso que pedras e diamantes. Sabemos que ela plantou frutos e isso nos conforta, sua passagem não foi em vão...

    Por fim, gostaria de agradecer em nome da familia Maciel por esse belissima homenagem.

    Abraços e tudo de bom!

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  2. Nossa, adorei! Triste, claro, mas tbém muito comovente!

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