sábado, 20 de fevereiro de 2010

ESPERAnça pós-carnaval

O Brasil ainda de ressaca (moral e permanente, eu diria), retoma a sua irreflexiva rotina, miserável e desigual, após os cinco dias de carnaval, onde o cenário de luxo, beleza e música, composto por uma vitrine de corpos esculturais (esculpidos pelos bisturis, lipoaspirações, silicones e demais recursos capazes de transformar em deusas do Olímpio as moças mais borralheiras), se desfaz e suas mazelas voltam a ser evidenciadas pela mídia em geral.


Durante os dias do reinado de Momo, a TV, antes alimentada pela divulgação de nossas patologias sociais, passa então a focalizar suas transmissões quase que exclusivamente nas passarelas do samba, na irreverência das criações dos bonecos gigantes de Olinda, nos circuitos percorridos pelos blocos de trios elétricos em Salvador e, especialmente, nas muitas nádegas a declarar, gigantes e eróticas por natureza... Imagens que transmitem a idéia fantasiosa e utópica de um país economicamente estável e hegemônico. A sujeira é varrida para debaixo do tapete.


A casa é arrumada, maquiada com o auxílio de corretivos que ajudam a encobrir nossas imperfeições, afinal, temos que ser bons anfitriões, nossos visitantes mais ilustres precisam obter as melhores impressões, necessitamos honrar o título de país do futebol e do carnaval. Para tal, nesse período, a segurança é devidamente reforçada, pois Madonna e CIA não podem correr os riscos oriundos da violência cotidiana que vitima a todos na Cidade Maravilhosa. Se bem que, caso a segurança policial falhasse, ainda assim ela estaria a salvo, pois ultimamente tem a proteção de Jesus!


Triste mesmo fora o carnaval do nosso ex-governador Arruda, que depois de patrocinar a tradicional escola de samba Beija-Flor, ironicamente homenageando os cinqüenta anos de Brasília, tivera que se contentar em assistir ao espetáculo no qual investiu seu “suado” dinheirinho, enclausurado numa cela (ou sala?), especialmente equipada para que o mesmo não sofresse tanto com a mudança brusca de ambiente.


O enredo da referida escola não poderia ser mais (IN)voluntariamente satírico: “Nossa capital vem ver.../Legião de artistas (não seria arteiros?)/Caldeirão cultural!/ Orgulho, patrimônio mundial./ A luz da esperança anuncia!/ Brasília, capital da esperança.”


Realmente, depois que os turistas estrangeiros retornam para seus países desenvolvidos, depois que os foliões pobres, mais pobres ficam, tendo que ralar o restante do ano para pagarem as prestações salgadas de seus abadás, depois que a maquiagem escorre pela face da nossa pátria mãe gentil, depois que a lágrima no rosto do Pierrô se incorpora a tantos outros rostos sofridos e marginalizados... Esperança é o que nos resta!


Entretanto, a esperança é algo estático, abstrato, imobilizador, se desprovida de ações, de atitudes desafiadoras.


Enquanto ficarmos vivendo e nos satisfazendo apenas com esperança pós-carnaval, estaremos fadados a sermos uma nação, na qual a alegria coletiva dura apenas cinco dias, enquanto os trezentos e sessenta restantes serão de suor e lágrimas.


E não adiantará clamar: “Oh, Deus!! Nos acuda!!” Pois o Soberano será capaz de interferir milagrosamente, mas não a favor de um povo alienado e inerte, numa atitude de revolta iminente, libertará os Arrudas e condenará seus eleitores.

Um comentário:

  1. Tinha em vc uma amiga que eu admirava...mas agora eu sei que vc não é uma simples amiga, é uma poetiza amiga...pareabéns...

    ResponderExcluir