quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Natureba



Estamos vivendo, literalmente, a era da geração narcísica. O padrão de beleza vigente determina que todos devem se enquadrar, se uniformizar, através de uma estética "perfeita". Para tal, uma indústria milionária se expande vertiginosamente, cada vez mais inovadora a serviço dos menos favorecidos fisicamente, ou seja, aqueles que não estão em paz com suas imagens refletidas no espelho.

Um culotezinho, uma barriguinha saliente, uma marquinha de expressão são suficientes para destruir a autoestima das pessoas, especialmente das mulheres (embora os homens já manifestem sintomas semelhantes), que acometidas por uma insegurança patológica, necessitam da admiração constante dos que as cercam. Como diz Caetano, Narciso acha feio tudo que não é espelho.


Frequentemente somos informados pela mídia parasitária (veículo que retroalimenta a ditadura do corpo perfeito) das agressões causadas pelos bisturis e lipos em clínicas clandestinas país afora. Sorrisos de boca de pato, caras de bonecas de plástico, bundas que não rebolam mais,  seios tão grandes e sem mobilidade que chegam a assustar, ao invés de despertar desejo. Exércitos de mulheres esculpidas a curto prazo são formados, culminando em um paroxismo sem precedentes.

Não se trata de disseminar um discurso hipócrita, afirmando que a nossa embalagem não carece de uma boa apresentação. Não! O que ocorre é que estão fabricando embalagens ocas ou com conteúdos estragados. E o que choca é que nesse caso, o produto é consumido satisfatoriamente. Nada de reclamações posteriores!

Enfim, eu prefiro alimentar o cérebro, o intelecto, a alma e o corpo também, é claro. Tudo de forma equilibrada. EQUILÍBRIO, essa é a palavrinha chave, que gera várias outras em nosso benefício próprio.
Mas nem sempre tive esse bom senso tão aconselhável.

Houve um tempo em que, influenciada pela moda da geração saúde e, mais diretamente por uma amiga que conheci na faculdade, aderi ao vegetarianismo de forma extremamente radical. Mais radical que os companheiros do antigo PT. Só comia grãos, cereais, frutas, hortaliças e produtos integrais. Chegando ao supermercado, lá ia eu buscar biscoitos de alho com cebola, pipoca de arroz, açúcar mascavo, balinhas de gengibre...

Quando via algum amigo (a) se dirigindo à cantina pra lanchar, eu me sentia na obrigação de alertá-lo (a) contra os malefícios das frituras e dos refrigerantes, especialmente da coca-cola. Claro que me tornei uma chata de carteirnha invisível. As pessoas evitavam comer perto de mim. Louca, trastornada, obsecada, só almoçava se fosse em restaurante natureba e quem estivesse comigo teria que ir junto comer saladas, arroz integral e rapadura de sobremesa.

Só me toquei o quanto estava exagerando quando, um belo dia enchi uma garrafinha com chá (cuja tonalidade se parecia muito com xixi) e fui pra faculdade. Ao sairmos na rua, minha amiga, também vegetariana (porém no seu juízo perfeito), disse: Eu estou com vergonha de sair com você. As pessoas estão te olhando e achando que você é adepta da urinoterapia!

Aliado a essa rejeição, tive anemia, fiquei raquítica e o médico foi categórico: Ou você abandona essa dieta maluca ou terá sérios problemas de saúde!

Hoje, ainda conservo bons hábitos alimentares, mas usando o bom senso em primeiro lugar! Embora ainda há quem me trate pelo apelido carinhoso de "Alface", aprendi a lição!

9 comentários:

  1. Oi, Mayre! Como sempre, seus posts são ótimos, inteligentes,com uma construção dinâmica e reflexiva. Sou fã mesmo. Parabéns!!!

    Pois é,o equilíbrio deveria ser o norteador desse processo de endeusamento constante, mas, infelismente, não é. Chegamos a etapa em que o plástico, o envelope está valendo muito mais que as pessoas, tanto que se julga primeiramente sua casa, roupa, beleza para posteriormente ser definida como uma pessoa a ser admirada, aceitada ou não.

    A carne, a única parte que se decompõe dentro do processo de existir, é o padrão de conceitos dentro desse mundo material.

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  2. Gostei do seu post,tem uma nuance bem humorada!!=)
    Toda mulher é assim, de certa forma.Isso acontece porque nós(mulheres)queremos que as outras nos vejam como a mais bonita, a mais gostosa,a mais mais.E isso é apenas mais uma manifestação daquela antiga e polêmica história: a concorrência feminina.Difícil nossa vida de mulher:se arrumar para elas, se despir para eles. A gente sofre e como!!

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  3. Daiane, senti sua falta por aqui esses dias! rs
    Falta dos seus coments sempre tão inteligentes e que só acrescentam aos temas que escrevo aqui! Muito obrigada por essa interação! Para mim é valiosa! Bjo!

    Luceccy...
    Concordo plenamente com o que disse: nós mulheres, nos vestimos para outras mulheres, pois são elas que julgam a nossa aparência, que nos rotulam o tempo todo!
    Gostei muito da sua frase: "nós nos arrumamos para elas e nos despimos para eles." rs
    Abraço!

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  4. Texto inteligente, abordagem crítica e muito questionador! Parabéns!

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  5. Adorei seu blog... Voltarei aqui sempre!

    Visita e dá uma forcinha pro meu!

    http://agrandedama.blogspot.com/

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  6. Olá, Romilson!
    Obrigada pela visita!
    Vou conhecer o seu, sim!!

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  7. olá amiga, tens que inovar os teus posts, tão fortes mas leves

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  8. Olá, Flávio!!
    Obrigada pela visita! Volte sempre!rs

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