domingo, 1 de agosto de 2010

Pseudo-pedagogos


Sempre quando ouço: "Marmelada de banana/banana de goiaba/goiaba de marmelo/ Sítio do Pica pau Amarelo..." Lembro-me como era fascinada por aqueles personagens e por aquele lugar fantástico, criado por Monteiro Lobato. Onde boneca de pano e sabugo de milho eram gente e bichos falavam!

Éramos envolvidos pelas malvadezas e encantos da Cuca, a bruxa malvada em forma de jacaré... O negrinho saci, sempre pitando seu cachimbo e pulando no meio do mato com uma perna só, desafiando a Cuca com seus poderes de invisibilidade e auto-locomoção aguçando a minha imaginação e a de tantas outras crianças que os assistiam, desenvolvendo o nosso pensamento criativo e nos mostrando desde já o antagonismo entre o bem e o mau. E, implicitamente, nos ensinando a criarmos mecanismos de auto-defesa contra os perigos do "mundo real."

Pois bem... Foi com indescritível surpresa que tomei conhecimento de que pseudo-pedagogos estão atacando  a figura lendária do Saci-Pererê, considerando-o  politicamente incorreto e, portanto, maléfico à educação das crianças.

Segundo essa gente de mente atrofiada, o cachimbo do saci estaria incentivando as crianças a usarem Crack!? E mais, o fato deste ser perneta, faria com que as crianças o vissem como um perdedor. Posição que demonstra um pré-conceito velado a pessoas portadoras de deficiência. Seriam essas pessoas "perdedoras" por causa disso?! Hã?! Que imbecilidade é essa agora?

Seguindo essa linha de raciocínio (?) bizarra, seria o mesmo que  considerar o Cebolinha, criação do Maurício de Souza, uma péssima influência para o desenvolvimento saudável da oralidade infantil, visto que ele troca algumas letras ao pronunciar determinadas palavras; ou o mesmo que subtrair o coelho da Mônica, por este representar uma arma que desencadeia instintos violentos; o Cascão teria que desaparecer ou mudar completamente, passando a se chamar Cheiroso e andar sempre de banho tomado e cabelinho engomado para dar bom exemplo de hábitos higiênicos.

O Pica-pau, um verdadeiro anti-heroi infantil, com seu jeito malandro de ser, teria que se converter a alguma religião, passando a praticar sempre o bem em todos os episódios, pedindo perdão o resto da vida à velha Ranheta por todas as maldades que lhe fizera no seu passado de pecador.

O Lobo Mau mudaria seus hábitos alimentares, tornando-se vegetariano convicto e andaria pela floresta em busca de frutas da estação e não mais atrás de menininhas indefesas. Nunca mais comeria a vovozinha e só tomaria refrigerante diet.

Os três porquinhos  construiriam casas com material resistente, de primeira qualidade, para não ofender as classes sociais menos favorecidas e aos pedreiros e construtoras mundo a fora (que diga-se passagem, às vezes constroem edifícios com areia da praia e nem precisa de sopro para vir abaixo).

Os desenhos da Disney teriam que ser extintos mediante uma ação judicial movida por determinadas igrejas evangélicas que os consideram criações satânicas!

O pau já não está mais sendo atirado no gato, na cantiga de roda, porque isso é coisa de criança malvada, com instinto assassino!

Ora, descaracterizar personagens da literatura infantil ou proibir as crianças de assistirem determinados desenhos animados ou de cantarem cantigas de roda, sob o pretexto de que estão sofrendo influências negativas na construção de suas personalidades é, no mínimo, negá-las o direito de usufruirem de um patrimônio cultural, é roubar-lhes parte da essência da história de seus antepassados.

Os conflitos, as diferenças, os medos são inerentes à vida e é encarando-os de frente que aprendemos a administrá-los. O resto é estória pra boi dormir!

10 comentários:

  1. Caraca, isso que é uma crítica bem desenvolvida e embasada. Eu não tinha ouvido falar desse absurdo, mas como o companheiro aí de cima disse: é chocante! Ainda bem que existe pessoas importantes como você, Mayre, para nos alertar. Abraços!

    www.laerte-lopes.blogspot.com

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  2. Oi Mayre! Tem selinho pra ti no blog
    http://newsnessa.blogspot.com/2010/08/mais-um-selinho-choquei-com-seu-blog-e.html
    Beijos!

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  3. é...realmente, fazemos nossas escolhas. Estas histórias não são vitais para o desenvolvimento de nossos filhos.
    Agora me digam pra que servem as cantigas:
    "Boi, boi, boi....boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta." Serve para dormir?
    "O cravo brigou com a rosa..." O que me dizem?
    "Atirei o pau no gato..."
    "Ciranda, cirandinha...o anel que me deste era vidro...o amor...acabou."
    Está na hora de analisarmos os resultados de hoje - violência, intolerância, ser esperto-(malandro)é melhor que ser honesto (lembram-se dos nossos políticos?), etc - ou acreditamos que os seres humanos de hoje não tenham visto e ouvido estas histórias e músicas?
    É óbvio que muitas outras questões estão envolvidas nestas situações, entretanto...precisamos começar de algum ponto e eu comecei falando sim destas histórias e musicas, porém ensinando aos meus filhos o que há de ruim em cada uma delas.
    Não me arrependo, procuro construir um mundo melhor.

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  4. Oi Mayre! Tem selinho pra ti no blog
    http://newsnessa.blogspot.com/2010/08/mais-um-selinho-eu-adoro-ler.html
    Ah, aproveita pra participar da promoção do livro Diários do Vampiro O Despertar.
    http://newsnessa.blogspot.com/2010/08/loja-do-altivo-nessa-news-entregam-o.html
    Beijos!

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  5. Olá, Adriana!
    Primeiramente, obrigada por visitar e deixar o seu comentário no meu blog!

    Então, como vc disse, existem inúmeras questões envolvidas nos atos de violência que presenciamos hoje... Mas, sinceramente, acho ingenuidade acreditarmos que cantigas como as que vc citou ou personagens de HQ e folclóricas teem uma participação ativa no desencadeamento de instintos violentos em nossas crianças. Como disse no texto, nós convivemos com o medo, com a insegurança, com os conflitos que são inerentes à vida e não podemos tentar criar uma redoma em volta de nossas crianças, tentando protegê-las disso, ao invés de ajudá-las a se fortelecerem, criando mecanismos de autodefesa!Não será descaracterizando o saci, por ex, que iremos inibir o uso do crack, até pq essa associação entre o seu cachimbo e a droga é absolutamente patética!

    Abraço!!

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  6. Olá, troquei meu banner, por favor, substitua aqui no blog, obrigada, bj

    http://danfalandodelivros.blogspot.com/

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  7. Olha eu aqui de novo!!Vc é pedagoga? Gostei do tema que vc abordou.Pois é, o mundo está se transformando em um ritmo cada vez mais rápido:
    tecnologia,novos valores e padrões.Cabe a nós termos e criarmos uma consciência saudável e corresponsável de que nossas ações individuais impactam o todo.

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  8. Oi, Luceccy...
    Bom v-la aqui novamente!
    Então, não sou pedagoga, sou professora licenciada em Letras!
    Sim, vc tem razão, nós educadores, primordialmente, temos a responsabilidade de contribuirmos para um mundo melhor, para o resgate e construção de valores que nos deem qualidade de vida! O que me intriga é que percebo alguns preocupados com coisas pequenas e esquecem de educar holisticamente nossas crianças.

    Obrigada pela participação. Volte sempre!

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  9. Vou te add no meu msn. Gosto de trocar experiências,embora seja psicopedagoga.

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  10. Amei o que vc escreveu aki... A sociedade atual perde muito tempo e olha que é muito mesmo em buscar mensagens sublimiares em desenhos animados, rótulos, ´músicas etc. Enquanto isso vemos alunos cada vez mais desmotivados por conta de inúmeros problemas na escola, por falar na escola. Quanto mais os anos passam mais gente despreparada vemos por aí, adoro esta palavra PSEUDO-PEDAGOGOS esta é a realidade, dentro da graduação vemos se propagar o erro, são teorias que não se ligam a prática atual, que na verdade não muda, só se reproduz valores (camufla-se o que ocorre na realidade) , escolas que trabalham com projetos, que na verdade suas culminancias são ficticias para agradar os pais (lembrancinha e atividade livre sem objetivo não é construtivismo) sem falar nas cidades que nomeiam seus pedagogos com cargo de confiança deixando muitas vezes de fora quem realmente quer fazer algo para mudar o sistema. A perda de tempo em deturpar valores culturais antigos e transforma-los em outros valores nada mais é do que deixar de lado uma cultura já existente, e não apostar em novas metodologias que tragam nao só o aluno mas a comunidade para a escola, mas isso tudo claro com projetos relevantes a necessidade daquela comunidade. Claro sabemos isso toma tempo, dá trabalho é bem mais fácil buscar defeito naquilo que fez parte de nossa aprendizagem do que reinterpreta-las a nossa realidade autal. Obrigada .

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