domingo, 26 de setembro de 2010

As presidenciáveis




“Na mullher tudo é enigma e tudo tem a sua solução: a gravidez. Para a mulher, o homem é instrumento e o fim é sempre o filho. Mas o que é a mulher para o homem? O brinquedo mais perigoso. O homem deve ser educado para a guerra, a mulher para a recreação do guerreiro. O resto é loucura.” (Nietzche)



Rá, rá, rá... Hoje, nós mulheres desdenhamos de afirmações machistas e retrógradas como esta de Nietzche, porém, essa e outras tantas posições semelhantes nos fazem relembrar a condição de subserviência a que as mulheres foram submetidas historicamente pelas ideologias patriarcais vigentes.

Durante séculos, os homens reinaram absolutos na filosofia e na ciência. Criaram leis, estabeleceram costumes e códigos morais. Construíram um universo masculino e exerceram total domínio sobre o sexo oposto. O homem não só submeteu a mulher aos seus desejos e caprichos, como a excluiu do poder e a explorou.

No entanto, gradativamente, ao longo dos tempos mudanças significativas foram ocorrendo como consequência da resistência feminina às imposições masculinas. Saimos da cozinha e mostramos que podemos assumir outros papeis, além de mãe, dona de casa e esposa.

As nossas limitações são apenas físicas e não intelectuais e estas não constituem marcas de inferioridade. Apenas nos distigue da espécie através de atributos que nos conferem um indefinível grau de atratividade.
Fascinamos pelo olhar, pelo caminhar, pelo falar, pelo jeito de mexer nos cabelos, pelas pernas cruzadas ao sentarmos, pela intuição aguçada que nos faz enxergar através de um terceiro olho, enfim, pela nossa feminilidade, sinônimo de encanto e beleza!

Somos tudo isso, mas não apenas isso...Também temos senso de liderança, capacidade de planejamento estratégico, visão amplificada, apreendemos conhecimentos diversos conforme nossos interesses pessoais, somos mentes pensantes, portanto, também estamos aptas a competir no mercado de trabalho visando cargos supostamente masculinos.

Entretanto, embora existam avanços significativos, as mulheres ainda são subestimadas e as arenas masculinas ainda são resistentes à partilha de espaços. Tem sido assim em vários segmentos da sociedade, inclusive na política nacional. Pesquisa recente envolvendo toda  a América Latina revela que a presença de mulheres na Câmara só é maior do que a do Haiti, da Guatemala e da Colômbia. As mulheres ocupam menos de 10% das 513 cadeiras existentes.

São quase insignificantes quantitativamente, mas extremamente ativas na defesa das causas públicas! Prova disso é que temos duas mulheres presidenciáveis nestas eleições! E uma delas, além de mulher, é negra. São duas  barreiras sendo transpostas simultaneamente. Marina Silva e Dilma Rousseff, embora possuam  histórias de vida e propostas políticas completamente dissociáveis, representam um marco na história da política nacional e um salto significativo em prol da igualdade de gênero no país.

Mas, ainda há quem diga: "não confio em mulher no poder"; "mulher não combina com política" ou "meu voto é de mulher". As duas primeiras posições são resquícios de pensamentos machistas obsoletos, enquanto a última configura o preconceito às avessas. Não devemos votar em mulher, simplesmente por antagonismo ao homem, mas primordialmente, por suas ideias e planos de governo serem compatíveis com o que acreditamos ser o melhor para nós, para a sociedade em geral.

E o que nos faz melhores ou iguais é a nossa COMPETÊNCIA, o nosso SENSO DE JUSTIÇA, os nossos VALORES HUMANITÁRIOS e não a denominação homem e mulher. Esses são os parâmetros mínimos para se escolher entre um e outro, entre um e outra, entre UMA e OUTRA.

E entre Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, escolho Marina! Não simplesmente por ser mulher, negra, ex-seringueira, ter nascido pobre no Acre (uma das regiões mais esquecidas do país), por ter contraído doenças e sobrevivido bravamente, por ter sido alfabetizada apenas aos 16 anos de idade... Não! Escolho Marina porque admiro sua história de coerência e competência política. Por que depois de assistir cotidianamente à banalização da corrupção que impera em nosso país, depois de ver todas as falcatruas e maracutaias se tornarem fatos corriqueiros e impunes, de ver nosso suado dinheiro enchendo as cuecas daqueles a quem o povo confiou o seu voto, ela me fez acreditar novamente na ética e na moralidade na política do Brasil.

Marina não tem plano de governo feito por marqueteiros, prometendo o que o povo quer ouvir, mas propostas reais, possíveis de serem concretizadas no âmbito educacional, social e ambiental. Um Brasil melhor é possível!


6 comentários:

  1. Depois da entrada de Obama na direção política dos Estados Unidos, o mundo superou um limite imposto dutante muito tempo: um negro a frente de um trabalho relevante para o país. No Brasil, vejo que estamos, também, atravessando um momento de transformação política. Não acredito numa melhora amplamente significativa, mas o fato de Dilma ou Marina ganhar, vai representar um limite que nós, brasileiros, precisamos atravessar: aniquilar o preconceito em torna da figura da mulher.


    Seu texto foi muito pertinente. Parabéns pela exposição de ideias!!!

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  2. =) Ótimo Mayre, uma boa leitura para o final de uma tarde de domingo.. =)

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  3. Passei pra coferir, e amei... Lembrando as palavras da poeta: "...Mulher é desdobravél..."

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  4. Daiane, adorei sua consideração.

    Quanto ao texto, a Marina é uma boa opção para votação e suas ideias merecem ser analisadas.

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  5. Excelente texto de uma MULHER super inteligente como a Mayre. É interessante ver essas mudanças em nosso país e notar que alguns conceitos machistas estão indo ao chão. Infelizmente a população prefere dar sua atenção ao que é mais popular e às vezes nem notam que por trás de uma figura que não tem o apoio do poder supremo do momento, existem propostas que realmente são possíveis. Espero que a população não cometa o mesmo erro que vem cometendo ao longo do tempo, se bem que isso ainda parece que vai demorar. Bom dia Mayre.

    Laerte Lopes
    www.laerte-lopes.blogspot.com

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  6. MULHER
    Eu era Eva
    Criada para a felicidade de Adão
    Mais tarde fui Maria
    Dando à luz aquele
    Que traria a salvação
    Mais isso não bastaria
    Para eu encontrar perdão.
    Passei a ser Amélia
    A mulher de verdade
    Para a sociedade
    Não tinha a menor vaidade
    Mas sonhava com a igualdade.
    Muito tempo depois decidi:
    Não dá mais!
    Quero minha dignidade
    Tenho meus ideais!
    Hoje não sou só esposa ou filha
    Sou pai, mãe, arrimo de família
    Sou caminhoneira, taxista,
    Piloto de avião, policial feminina,
    Operária em construção...
    Ao mundo peço licença
    Para atuar onde quiser
    Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
    E meu nome é MULHER!!
    (O autor é desconhecido, mas um verdadeiro sábio)
    Nilton

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