terça-feira, 2 de novembro de 2010

A terceira margem do rio


Estou colocando as minhas coisas em ordem aqui em casa. Aproveitei o feriadão para fazer uma faxina geral. Não pensem que por aqui tudo estava uma zona. Não. É que existiam  guardados há muito tempo que não tinham mais serventia e mesmo assim continuavam guardados. Por que será que adquirimos o hábito de irmos acumulando coisas ao longo da vida, mesmo sabendo que não nos serão mais úteis?

Sapatos, roupas, cintos, cadernos e mais uma extensa lista de quinquilharias vão ocupando espaços em nossas casas e em nossas vidas. Vamos adiando o afastamento de tudo isso, como se houvesse um sentimento de afetividade aliado ao de posse. Algo do tipo: eu gosto de ter, mesmo sabendo que não preciso. Não é um apego ao objeto em particular, mas ao prazer em possuí-lo.

Claro que existem objetos que são simbólicos, que nos remetem a momentos importantes de nossas vidas, sejam estes comprados ou presenteados por  pessoas especiais. Estes guardamos simplesmente porque temos um apego sentimental. Não são utilitários, mas precisam ser guardados porque são representativos.

No entanto, existem coisas perfeitamente descartáveis, inutilidades, que nos acompanham por um bom tempo. Até chegar o momento de nos sentirmos incomodados, de sermos tomados por uma sensação de desorganização interna! É como se tudo estivesse fora do lugar, disperso, cheirando a mofo! E vem aquele ímpeto incontrolável de recolher tudo que já teve seu prazo de validade vencida e atirar no lixo, o semitério das coisas improfícuas.

A impressão que temos é de renovação. Não apenas externa, mas principalmente interna. Ficamos prontos para seguirmos adiante, com leveza na alma e espaços disponíveis para serem novamente preenchidos. Assim também acontece com determinados aspectos de nossas vidas: com pessoas que nos acompanham mas que já não são mais as companhias desejadas, pensamentos obsoletos que atrofiam a nossa evolução interior, com o comodismo que provoca uma estagnação improdutiva...

Nas palavras de Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

E ficar à margem significa ser apenas espectador da fluência do rio, sem nunca saber o que poderemos encontrar na segunda ou quem sabe, terceira margem, de que falava Guimarães Rosa. O rio de águas turvas e profundas também nos observa e desdenha da nossa covardia.

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

(A Terceira Margem do Rio- Caetano Veloso)

3 comentários:

  1. Outro dia recente, falva com minha irmã justamente isto. Ela reclamava do que não foi, afirmando que não foi por não poder ter sido. E então começou a desfiar o rosário de obstáculos. Bem, concordei e discordei. Em minha discordância, perguntei o que ela faz com o tempo que tem. Não de uma forma produtivista, como quer o capitalismo insaciável, mas como uma forma de aproveitar o tempo para ser mais do que se é. Quanto tempo não perdemos assistindo coisas tolas na TV? Quanto não não desperdiçamos sentados no sofá com a "boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar" (Raul Seixas). Motivei a mesma a fazer um curso no SENAI(tem tantos!); a tentar um vestibular - ela reclamou que já tem 51 anos -. Bem, concordo contigo. A terceira margem do rio espera nossa iniciativa para ser mais, para ser outra pessoa surpreendente que jamais imaginávamos que seríamos. Parabéns pelo sua reflexão. A propósito: se tiver um cd antigo de Roberto Carlos ocupando muito espaço, aqui em casa tem um lugarzinho...

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  2. Pois é, JÔ... Perdemos de inovar, de sermos mais do menos, por comodidade e medo de ousar!
    Ah! Infelismente não tenho cd de Roberto Carlos, serve um de Mastruz com Leite?? rsrs Tou prestes a me livrar dele!rsrs

    Abraço!!

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  3. Também fiz uma limpeza, dia desses. rsrsrs
    Gostei do texto!
    Beijos!

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