sábado, 13 de novembro de 2010

Regando a vida



Sempre tive vontade de cultivar um jardim em minha casa, mas não havia um espaço adequado para tal. Agora existe. Empolgada com a possibilidade de me ver rodeada de plantas ornamentais e flores de várias espécies, tratei de ir em busca de doações de algumas "mudinhas". Ganhei várias, tantas que não sei nomeá-las, falta-me conhecimento em Botânica. Mas não importa, eu as identifico pelas cores, pelo formato das folhas e suas nuances, que mais parecem pinturas fora das molduras. Ou melhor, elas são matéria-prima, inspiração para a criação.

Ansiosa por vê-las crescerem lindas e viçosas, fui em busca do alimento que as fortalecem, adubo orgânico, formado pela decomposição de matéria animal e vegetal. A natureza sabiamente cumpre seu ciclo. Pude constatar na prática a lei de Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

E rotineiramente, passei a aguá-las duas vezes ao dia. Mesmo com todo esse cuidado, algumas estavam amarelando as folhagens, murchando, definhando aos poucos... Fiquei desanimada achando que não levava jeito mesmo para cultivá-las. Até que alguém mais experiente do que eu em matéria de cuidar de plantas, disse: "Mayre, você está deixando-as no sol o dia inteiro. Elas não aguentam essa temperatura tão alta. Além disso, elas não devem ser aguadas duas vezes ao dia, porque a terra não absorve tanta água, fica enxarcada e a raiz da planta apodrece.

Ok. Percebi que os meus cuidados tão bem intencionados estavam a ponto de matá-las em um curto espaço de tempo.Tirei-as da exposição ao sol e comecei a dar-lhes água moderadamente. Está dando certo. Elas estão reagindo. As folhas estão verdes e elas estão crescendo visivelmente.

O problema agora são os pardais e as formigas que teimam em querer degustá-las em um banquete coletivo. Para conter as formigas tão bem organizadas e numerosas, só veneno mesmo. E é preciso destruir o formigueiro inteiro, caso contrário elas retornam mais exterminadoras do que antes. Quanto aos pardais, a única alternativa foi tirar as mudinhas do campo de visão deles. Não sei até quando conseguirei despistá-los. Quando eles as descobrirem novamente, terei que mudar de tática para protegê-las dos seus algozes.

Durante esse processo, aprendi não apenas a cultivar adequadamente as plantas, mas também a rever a forma como cuidei ou estou cuidando do relacionamento com as pessoas com as quais convivo. Aprendi, entre outras coisas, que muitas vezes pecamos pelo excesso. Nesse caso, ocupamos espaço demais e acabamos transbordando, trazendo incômodo. É necessário um pouco de ausência para que a presença faça falta, ou não.

Aprendi também que cada pessoa é singular, portanto devemos adequar o nosso trato de acordo com seus caracteres pessoais. Algumas, extremamente sensíveis e vulneráveis, necessitam de mais "adubo" e de temperaturas amenas, outras, tal qual as vegetações típicas da caatinga, são altamente resistentes às agressões do tempo. Precisamos conhecê-las para poder conservá-las ao nosso lado.

Aprendi que quando determinados problemas ameaçam o nosso bem-estar, o nosso vigor existencial, é necessário usar o veneno adequado, ou seja, exterminá-los antes que eles cresçam desordenadamente e não haja mais tempo para impedir os danos. Destruir o formigueiro antes que ele nos destrua.


Tudo isso exige paciência, doação, discernimento... Mas vale a pena, pois, independente da estação, o jardim se manterá sempre bonito, oxigenando melhor os nossos pulmões e trazendo mais vida para nossa vida!


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