domingo, 13 de março de 2011

Cidades Mortas


Em meio às minhas leituras atuais sobre a Linguística e Análise Literária, preparando a próxima Oficina do Gestar II, de LP, deparei-me com o fragmento  de um conto de Monteiro Lobato, intitulado Cidades Mortas, o qual reproduzo abaixo:

A cidadezinha onde moro lembra soldado que fraquejasse na marcha e, não podendo acompanhar o batalhão, à beira do caminho se deixasse ficar, exausto e só, com os olhos saudosos pousados na nuvem de poeira erguida além. [...]
Atraídos pelas terras novas, de ferocidade sedutora, abandonaram-na seus filhos. Só permaneceram os de vontade anemiada, débeis, faquirianos. "Mesmeiros", que todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam - pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo. (LOBATO, Monteiro. A vida em Oblivion. In Cidades Mortas. 12 ed. São Paulo: Brasiliense, 1965, p.5-6)

O cenário e os personagens descritos por Lobato são os mesmos que visualizo na minha cidadezinha interiorana, onde cada dia se repete como cópia rasurada do anterior. No mesmo caminho que percorro todos os dias para ir ao trabalho, no mesmo horário rotineiro, sempre me deparo com alguns típicos conterrâneos desalentados, sentados em suas calçadas de casas geminadas, onde alguns, por falta de uma novidade que renda uma boa prosa, comentam sobre o tempo, a falta de chuva, o vizinho que adoeceu, a última "traquineza" do menino danado, a separação de algum casal, o último capítulo da novela... Outros, simplesmente contemplam o vazio, o vazio de não ser o que quiseram ter sido ou que foram um dia, mas hoje não o são mais.

Com o perfil destes últimos, destaco um em especial. Trata-se de um senhor, ex-fotógrafo, de olhar triste, cabisbaixo, passos lentos e de pouca conversa. Todos os dias ele abre o seu antigo studio fotográfico, ainda com a mesma cortina de plástico floral, senta-se na calçada e ali permanece, provavelmente lamentando o advento das câmeras digitais, tão modernas, práticas e acessíveis, que puseram em desuso a sua antiga câmera, hoje um objeto obsoleto. Alguém que se recusou a acompanhar o progresso tecnológico, preferindo se anular e se alimentar de lembranças.

Com essa mesma resistência ao novo, há também a moça que se recusa a manusear o computador, ainda saudosa das antigas máquinas de datilografar, com suas teclas duras e barulhentas. O desconhecido lhe causa medo, insegurança e ela se deixa vencer pela "mesmice". Deve pensar: por que mudar, se posso continuar assim como está?

Ainda há aqueles, frequentadores assíduos dos bares das esquinas, onde se reúnem para beber e jogar, não apenas sinuca, dominó e baralho, mas principalmente a conversa fora, de repertório mais do que previsível.

E eu aqui, pensando e me perguntando: por que há gente assim?? Para as quais os dias são reprises intermináveis e suas falas só reproduzem lugares-comuns. EU ME RECUSO A SER MAIS UM, mesmo permanecendo aqui.

É preciso inventar, reiventar
E se apropriar de uma nova forma
de ser e dizer o que já foi dito e repetido.

Paguemos o preço pelo imprevisível
pela fuga da produção em série,
pela negação da uniformização, que cega!

Pois, se na terra de cegos
quem tem olho é rei
Ocupemos o trono e façamos as leis!

Nos preparemos para enfrentarmos
as adversidades, vindas de todos os lados
da não-aceitação de uma suposta revolução.

A começar pela imposição
do que pensamos em detrimento
da domesticação da razão.

Desfaçamos os nós, 
Libertemos discursos e desejos reprimidos
Sejamos ousados, fujamos do castigo.

E para aqueles que preferirem
Uma vida estática, desprovida de sentido
Que peguem carona com a morte, na próxima estação.


 

3 comentários:

  1. Nossa Mayre, que texto fantástico! Mecheu muito comigo. Me reconheci em alguns aspectos, como, por exemplo, a vida num cenário imutável e a vontade incessante de viver, ver e conhecer novos paradigmas, coisas, pessoas e principalmente pensamentos. Parabéns pelo texto e um baita parabéns pela linda poesia.

    Beijão e paz!

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  2. Mayre,
    Rubem Alves tem um texto que ele tomou emprestado de Gabriel García Marquez, e que o primeiro intitulou "A aldeia que nunca mais foi a mesma". Sua belíssima reflexão me fez lembrá-lo. Ele começa assim:
    Aldeia de pescadores, perdida num sem fim de mundo, rodando com as voltas sempre iguais das rotinas do cotidiano, a banalidade dos mesmos rostos em suas máscaras de espumas, a mesma fala, sons ocos vazios, um sentimento de sem-saída, todos condenados ao mesmo inevitável grotesco-banal... Até que um dia, numa manhã igual, um menino viu coisa diferente flutuante no mar e gritou, e todos vieram à praia, qualquer novidade serve, e esperaram que o mar, no seu sem-pressa pusesse a coissa sobre a areia. E o desapontamento foi grande. Homem morto, afogado, desconhecido. E o costume era que as mulheres preparassem os mortos para a sepultura. Assim o levaram para uma das casas, as mulheres de dentro, os homens de fora. E o silêncio era grande. Que é que se pode falar sobre um morto desconhecido? Até que uma das mulheres, leve tremor no canto da boca comentou:

    - É, se ele tivesse vivido entre nós, teria sempre de abaixar a cabeça ao entrar em nossas casas; é alto demais...

    Com o que todas concordaram discretamente, para mergulhar de novo no silêncio da morte. Mas a vida se intrometeu de novo, e uma outra rompeu o silêncio:

    - Penso em como teria sido a sua voz. Como as ondas? Como a brisa? Teria sabido dizer aquela palavra que faz com que uma mulher apanhe uma flor e a ponha no cabelo?

    E em todas as bocas houve um suave sorriso, de novo dissolvido no silêncio. Até que uma outra teve de falar:

    - Penso nestas mãos... Terão conduzido navios? Plantado árvores? construído casas? Quem sabe elas sabiam amar, acariciar, abraçar...

    E todaas riram um riso que não mais acabava, e o velório virou festa, enquanto aves selvagens, chamadas pelo morto do sono-esquecimento em que se encontravam, comecçaram a bater asas, e os corpos em que moravam voltaram à vida, e nos seus olhos apareceu o brilho da alegria que todos pensavam sepultada. E os maridos, de fora, tiveram ciúmes do morto, pois ele, no seu silêncio, fazia com elas o que eles não conseguiam fazer, com suas palavras. E pensaram que eles eram pequenos demais, e lamentaram as palavras de amor que não disseram, os mares que não navegaram, as mulheres que não abraçaram. Termina a história dizendo que esl finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

    E é isso Mayre: você com sua aguda visão e sua poesia encarnada no seu tempo, tece uma história diferente e ressuscita diante do mesmimo de tanta gente morta em vida, que precisa apenas serem enterradas.
    E você ainda tempera com sua poesia bela e surpreendente, cheia de dizeres para mais além do que disse. Suas palavras enchem de vida a vida de muita gente, incluindo a minha.

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  3. Ou querido... Obrigada por complementar as minhas reflexões trazendo esse texto belíssimo de Gabriel Garcia Marquez através do amado Rubem Alves!
    Feliz em saber que a minha escrita o envolve e de alguma forma traz mais vida para a sua vida.
    Saiba que os seus textos também contribuem para o meu êxtase enquanto leitora!

    Abraço!!!!
    Mayre

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