domingo, 29 de maio de 2011

Quando o povo começa a raciocinar...


Quando o povo começa a raciocinar, é porque já está tudo perdido. (Voltaire)

Ao folhear as páginas da Revista Brasileiros, deparei-me com  esse pensamento do célebre filósofo Voltaire, ao passo que automaticamente associei-o ao povo brasileiro, por não exercitar o seu raciocínio explicitamente, de forma crítica e analítica há muito tempo. Ao que parece, a razão para essa paralisia intelectual estaria diretamente ligada à falsa impressão de que tudo vai muito bem, obrigado!

Caiu-se nas teias alienantes dos discursos midiáticos, que fazem saber a todos um Brasil emergente, com amplo crescimento econômico, como se economia estável fosse sinônimo de distribuição de renda justa e igualitária. Como se todas as necessidades básicas da sociedade estivessem sendo integralmente atendidas: saúde, alimentação, educação, moradia, segurança, tudo indo às mil maravilhas! Está?!

Pior do que o caos divulgado em números e imagens é aquele que se estabelece silenciosamente, de forma velada. E esse último, o qual a maioria ignora é o que nos acompanha, vendando nossos olhos e retardando ações mobilizadoras. Meu medo é que quando todos resolverem levantar-se do berço esplêndido, recobrando suas consciências adormecidas, tudo já esteja demasiadamente perdido.

Ou será que o povo heroico, cansado de antigas batalhas, perdeu seus atributos e está (pacientemente e ilusoriamente) à espera de um único herói, capaz de libertá-lo das opressões supremas? O perigo está em nomear supostos herois que, ao invés de lutar por causas benéficas, visando o bem-estar coletivo, utilize suas armas em prol de benefícios próprios e da perpetuação da desigualdade social. Afinal, desde que muitos morreram de overdose, não se fazem mais heróis como antigamente...


2 comentários:

  1. Oi, Mayre! Muito pertinente essa sua reflexão. Ela encaixa-se perfeitamente com a mentalidade do brasileiro, que se acomoda, permite a alienação e não raciocina seu ambiente e, consequentemente, vemos diariamente a ascensão de conflitos e marginalidades de um sistema que nós mesmos alimentamos - por nossa falta de pensar e criticar o nosso meio.

    Como sempre, parabéns!

    Beijão!

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  2. Como sempre muito pertinentes os seus comentários caríssima Mayre. Estou escrevendo um pensamento sobre o ato d apontar algo como um ato profundamente político e ideológico. Bakhtin estava certo. Todo signo é ideologico e isso é deveras importante de ser reconhecido, pois você aponta para uma realidade que poucos querem ver. Você diz: - Olhem para ali!!! Ó paí ó!!! E quando você chama a atenção desse objeto posiciona-se claramente a favor do levante político e cultural de um povo morimbundo, pois mais massa e menos povo. Tal preocupação também preocupa-me. Vejo o povo morrendo sem entender as causas estruturais de sua morte. Um "povo copa do mundo", "povo São João", "povo carnaval". Até a espiritualidade o povo está perdendo. O povo está secando neste deserto contemporâneo de reflexões...
    Parabéns!

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