domingo, 19 de junho de 2011

Preconceito linguístico x Ignorância jornalística

Recentemente, eclodiu nos telejornais da famigerada Rede Globo, mais uma polêmica envolvendo o ensino da Língua Portuguesa no tangente às variações linguísticas no Brasil. Dessa vez, o alvo de uma suposta assepsia da língua nativa fora o livro da coleção Viver e Aprender, destinado aos alunos da EJA, simplesmente porque como tantos outros livros avalizados pelo MEC e que seguem os pressupostos dos PCNs, faz uma referência às diversas variações linguísticas presentes no uso da língua materna.

Numa verdadeira demostração de ignorância aos renomados estudos da Linguística Aplicada, o pseudojornalista Clóvis Rossi, em texto divulgado pela imprensa, proferiu o seguinte despautério:
"Em tese, os professores são pagos-mal pagos, é verdade-para ensinar certo. Mas, se aceitam o errado, como agora avaliza o MEC, o baixo salário está justificado(...) E encerra a sua lamentável evaquação verbal dizendo... "Que os professores prefiram a preguiça ao ensino, já é péssimo. Que o MEC os premie é crime."

Ora, crime deveria configurar toda e qualquer informação desprovida da verdade. Pergunto-me por que determinados jornalistas têm sempre a pretensão de abordar assuntos dos quais desconhecem, através de discursos dogmáticos e perniciosos, prestando um desserviço à população. Acham-se detentores do saber e se julgam capazes de discorrer sobre qualquer tema em evidência, com propriedade e imparcialidade.

São levianos, pois na maioria das vezes demonstram um conhecimento superficial, quando não distorcido, posicionando-se de forma tendenciosa. É o caso da referida acusação de que o livro didático estaria orientando aos professores a ensinarem errado. Meus caros, qualquer pessoa, com um mínimo de conhecimento sobre o uso da linguagem sabe que vivemos uma realidade linguística altamente diversificada, marcada pela estratificação social, pela faixa etária, pela localização geográfica e pelo nível de escolaridade.

O que a Linguística propõe não é o "ensino errado" da língua, mas o respeito aos diferentes registros do português falado e escrito, como reconhecimento da heterogeneidade cultural de um povo. Um povo que já é demasiadamente discriminado e marginalizado. O preconceito linguístico é mais uma forma de opressão do maior contra o menor.

Diante desse contexto, qual seria mesmo o papel da escola? Com a palavra, o linguista Marcos Bagno:

"Cabe à escola ensinar a norma padrão, que não é língua materna de ninguém, que nem sequer é língua, nem dialeto, nem variedade (...) Ensinar o padrão se justificaria pelo fato dele ter valores que não podem ser negados-em sua estreita associação com a escrita, ele é o repositório dos conhecimentos acumulados ao longo da história. Esses conhecimentos, assim armazenados, constituiriam a cultura mais valorizada e prestigiada, de que todos os falantes devem se apoderar para se integrar de pleno direito na produção/condução/transformação da sociedade de que fazem parte."  (BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico. SP, Loyola,2004, pg.179)

Até porque não teria sentido ensinar algo que o aluno já domina e usa no seu cotidiano. Entretanto, como enfatiza Bagno, não basta apenas oportunizar aos alunos o aprendizado da norma culta como se isso fosse garantia de ascensão social. É necessário assegurar-lhes abertura no mercado de trabalho, moradia digna, saúde de qualidade, segurança para ir e vir e mais uma série de direitos que os permitam exercer a cidadania plena.

Quanto a nós, professores, malabaristas monetários e heróis por natureza, a preguiça não nos caracteriza! Não a nós, que precisamos trabalhar sessenta horas para termos uma vida digna. Preguiçosos intelectuais nos parecem aqueles que preferem propagar informações infundadas a irem em busca do conhecimento científico.

A exemplo do que disse recentemente a professora Amanda Gurgel, nós exigimos, no mínimo, RESPEITO!


Um comentário:

  1. Muito importante o seu texto, Mayre. Sintetizou considerações relevantes em volta o preconceito lingístico que é, antes de mais nada, originado do preconceito social, da mendicidade do caráter humano. Quando vi a reportagem da rede mencionada, um absurdo assolou minha alma, afinal, a matéria, feita supostamente por intelecuais, foi preconceituosa, baixa e imparcial, não informando, mas demonstrando a opinião pouco concreta dos profissionais que a informaram.



    Todos deveriam ler o livro de Marcos Bagno e formar uma opinião mais ampla e ineligente a respeito do tema.


    Parabéns!!!!

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