domingo, 7 de agosto de 2011

Deu a louca no tempo

Todos os dias quando acordo, percebo que não tenho mais o tempo que passou... Os grãos de areia da ampulheta parecem estar caindo rápido demais. O dia amanhece e entardece mais cedo. No trabalho, entre amigos, é comum ouvir: nossa, a semana passou voando! Um vôo de avião a jato, deixando apenas uma lembrança esfumaçada de como foram os dias. Até o despertador anda sonolento, cansado de acordar tão cedo. Na certa deve pensar que deu a louca no tempo. Será que anda apressado demais, em busca de outro tempo perdido ou de um tempo ainda em construção?

O poeta português Fernando Echevarría, tem um poema chamado O tempo vive, onde os primeiros versos dizem assim:

 O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo
.

Quando vivemos em função do tempo e não de nós mesmos, ele se envaidece demais, cria asas e sai voando por aí, desembestado, sem nos esperar. Não, o tempo não espera.  Quando olhamos as horas, ele já passou. A hora é irmã do tempo e só obedece aos seus comandos. Muitos dizem “precisamos dar tempo ao tempo...” Não, ele não precisa ser mais autosuficiente do que já é. Nós é que precisamos da sua doação, da sua compreensão, da sua generosidade em ceder-nos um pouco de si, depois de percebermos que estamos apenas correndo contra ele.

A vida moderna se caracteriza pelas ações automatizadas. Precisamos cumprir nossas tarefas diárias com perfeição, honrar nossos compromissos e atender a todas as exigências impostas, de forma impecável. É preciso ser melhor do que os outros, sempre.

Na faculdade, tive um professor apelidado carinhosamente de “o demônio da literatura”, o qual afirmava que dez é para Deus, nove para um semi-deus e oito para um aluno normal. Ninguém quer ser apenas normal, todos querem ser Deus. Não basta ser vice-campeão, ganhar medalha de prata, bronze então, é humilhação! Todos almejamos o lugar mais alto no pódio, porque só assim seremos vistos, reconhecidos.

A vida passou a ter um caráter eminentemente competitivo e robotizado. Corremos sem parar para alcançar o primeiro lugar. E nessa corrida desenfreada, nos esquecemos  que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, como sabiamente disse Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas. É na travessia sim, nas margens do rio, da estrada que seguimos, é lá onde está o sentido, o real, a razão de existir. Se atravessarmos a vida correndo, não terá valido a pena estar aqui.

De olhos abertos e com passos moderados teremos uma percepção real do que nos cerca e do prazer que podemos ter com tudo que a falta de tempo nos impede de viver: a companhia de amigos seja pra usá-los como psicólogos ou simplesmente pra jogar conversa pra dentro; um momento exclusivamente seu, para vê aqueles filmes listados há tempos remotos ou tão somente pra lixar os pés, removendo as células mortas que causam aquela aspereza desagradável quando seu pé encosta-se a outro pé. Não importa o que faça, contanto que te dê prazer.

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