sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A atração se distraiu


Ela queria, ele se defendia. Insinuava e recuava. Mas a companhia era constante para quase todos os instantes. As palavras ditas eram compreendidas integralmente, porque estavam sempre em sintonia, em harmonia. Pensamentos sincronizados, como se fossem univitelinos. Identificação generalizada era a definição para aquela relação tão intimista. Todos falavam, um amor existe ali. Existiu? Talvez, camuflado, subtendido, nas entrelinhas do não-dito. Um sentir expresso de forma subliminar. Aqui e ali, revelado num gesto, num olhar que dizia "olhe, estamos aqui, e aí?" Numa espécie de fuga de si mesmo, ele saía pela tangente, rejeitava o óbvio à sua frente. Fazia o jogo "quero, não quero". Rejeitou, rejeitou, até que a atração se distraiu, se contraiu, de tão contrariada, sumiu. Sumiu? Não, digo, saiu pra passear. E nesse passeio, claro, outras paisagens, outras pessoas desviaram seus caminhos. Experimentaram outros pratos, outros cheiros, outros sabores e gostaram. Ficaram longe e não mais se aproximaram. Nada mais além de um abraço casual, de um "tô com saudade" e ponto final. Não, não o final do fim da história. Um ponto parágrafo de um texto em construção, coerente com um enredo interrompido por alguns anos de separação, à espera de seus  personagens de férias pra dar continuação. Cansados, se aquetaram e ao se verem novamente, se inquietaram, como tinha que ser. Perceberam que tudo estava ali, intacto, como um tesouro bem guardado. Se revisitaram e se reconheceram. O mesmo prazer, o mesmo querer, o mesmo sorriso espontâneo ao se verem e se perceberem tão iguais nas suas singularidades. Novamente a necessidade de compartilhar belezas e sutilezas. "Você precisa ouvir essa música, porque é a sua cara", ou "Eu trouxe esse livro pra você ler. As páginas estão marcadas." (...) "Eu sonho isso pra você..." Ao se afastarem, por instantes, ele a segue e diz: "Não consigo ficar longe de você." À noite, ele povoa seus sonhos impossíveis. E ela lamenta o desencontro, o "quase" e o "nunca mais".

E para eles O Teatro Mágico canta assim...


Você me bagunça, tumultua tudo em mim
Essa moça ousa, musa, abusa de todo meu sim
Você me bagunça e tumultua tudo em mim
Mira e joga baixo, eu acho, nem sei,
Só sei que foi assim....



6 comentários:

  1. Só sei que foi assim: Lindo texto!!!! Permita-me: MUITO LINDO DEMAIS!!!!

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  2. Que bom que gostou, Ilminha!!Disseram-me que estou mais solta nesse texto, que perdi o medo...rsrs Deve ser a influência clariciana através dos tempos.kkkkk

    Bjoss, querida!

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  3. Olá Mayre! Que lindo texto! Tenho mais um blog para visitar e compartilhar!
    Quero agradecer pelo comentário no post "Notícia Velha", às vezes achamos que ninguém lerá o que escrevemos, fica mais o exercício de exorcisar as angústias, mas é muito bom quando encontramos alguém que compartilha conosco. Abraços!

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  4. Texto interessante. Diz muito e muito mais nos não-ditos. O que faz os sentidos produzirem seus efeitos e o texto no contexto se refaz e desanda a dizeres que partilham curiosos a beleza das relações de amor, que são a marca principal do existir.
    Um abraço afetuoso: Joselito

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  5. Passando opra conhecer e já gostei!Muito bom, mais um blog interessante...abraços!

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