domingo, 29 de abril de 2012

Alma (s) Gêmea (s)



Fernando Pessoa, teoricamente fazendo-nos pensar sobre a arte de amar, dizia que: “Nunca amamos ninguém...” Interrompendo aqui o pensamento do nosso célebre escritor e abrindo um parêntese para um súbito questionamento, diríamos: mas como isso é possível?! Seria o amor uma farsa? Uma invencionice humana criada para preencher um vazio puramente existencial? Uma fuga de nós mesmos, procurando refúgio no outro?

Não exatamente. Ele prossegue inesperadamente, dizendo que: “Amamos, tão somente a idéia que fazemos de alguém. E a um conceito nosso- em suma, é a nós mesmos- que amamos. Isso é verdade em toda escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia.”

Amamos, de acordo ao que profere Fernando Pessoa e com o qual concordo, a ideia representativa da pessoa com a qual mantemos ou pretendemos manter um vínculo amoroso. E o que representa essa pessoa nada mais é do que um conceito particular traduzido por um conjunto de qualidades às quais admiramos e com as quais nos identificamos, logo desejamos que sejam compartilhadas conosco porque isso nos completa, nos faz mais feliz. Em suma, é a beleza que irradia do outro e que nos atrai tanto quanto um ímã a um objeto metálico.

Mas, não confundamos essa beleza com o estereótipo de beleza física tão massivamente propagado pela mídia em geral. Não. Essa beleza é frívola, tem data de consumo pré-determinada pelo tempo, é produto perecível. Se cairmos na armadilha de amar tão somente a embalagem, correremos o risco de estarmos sempre à procura de um produto novo, trocaremos de marca, assim como trocamos de roupa. Característica notória dos tempos atuais: todo mundo fica com todo mundo, mas ninguém fica com ninguém. Resultado: frustração, vazio interior, solidão... E aqui vale lembrar daquele velho clichê: Solidão não é estar sempre só, é estar rodeado de gente e sentir falta apenas de uma pessoa.

E quem seria essa pessoa tão desejada e ansiosamente procurada? Voltando ao conceito pessoaniano, seria a nossa alma gêmea, aquela pessoa a qual olhamos e nos vemos refletida, como num espelho. A quem nem precisamos concluir um pensamento, pois ela antever o que  pretendíamos falar ou, às vezes, para espanto de ambos, proferem as mesmas palavras, simultaneamente. E isso se estende a outras formas de amar, não apenas esta entre homem e mulher (ou outras formações de casais). São raras as vezes em que as encontramos, mas para nossa intensa felicidade e regozijo, elas existem. São pessoas as quais batemos os olhos, trocamos algumas palavras e a comunhão acontece. Há uma convergência de ideias, pensamentos, valores... Sintonia total.

Nesse mundo tão aparentemente oco, sustentado pela superficialidade e pelos relacionamentos banais, o amor surge como uma espécie de catarse... Nas palavras de Clarice Lispector: “O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente...”

Para ilustrar o texto, vejam Ana e o Mar, de O Teatro Mágico.







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