quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A política e o pensamento divergente


Estamos declaradamente em guerra, incitados pela defesa de uma suposta ideologia político-partidária. Nas redes sociais ou nas conversas de bar, eclodem comportamentos agressivos, insultos morais e pessoais, homofobia, intolerância religiosa e política imperam nos discursos mais sórdidos proferidos por candidatos e seus seguidores. Não há limites, para os que consideram estar exercendo o direito constituído à “liberdade de expressão”.
Recentemente, acometidos por um acesso de ódio perante o resultado das urnas na disputa presidencial em 1° turno, em um ato de desrespeito ao exercício da democracia, surge em falas preconceituosas e arrogantes a ideia separatista de dividir o país geograficamente. Sul e sudeste demonstraram (embora por um número irrisório de pessoas, mas bem ancoradas pela mídia e por partidos políticos oportunistas), todo o seu asco, por nós, nordestinos. Não é novidade que o nosso sotaque, os nossos dialetos, os nossos traços culturais tão originais, e até a nossa formação climática sempre foram motivo de chacota por um grupo de pessoas que se julga elitista e, portanto, superior em todas as características destacadas acima.
Foi o que bastou para consolidar ainda mais a intolerância ao pensamento divergente. Se nunca existirá, de fato, a tal separação geográfica aclamada por alguns, ainda assim estamos divididos. Fomos fracionados ideologicamente nessa disputa eleitoral. Somos metade de um todo egoísta e intelectualmente vaidoso. Somos inteligências reduzidas em busca da comprovação de uma subverdade tendenciosa.
É claro que temos direito e somos impulsionados a escolher o lado que, de acordo às nossas crenças e descrenças, completa um quadro representativo das propostas que mais nos seduzem e com as quais nos identificamos. Até aí, tudo certo. Um time não joga sozinho. Precisa de um adversário para que a bola role. Com isso, torcidas se (in) formam. Porém, diferentemente, das torcidas que lotam os estádios de futebol em nosso país, e das quais temos retirado péssimos exemplos de conduta social e moral, não podemos agir de forma passional, agressiva e discriminatória na defesa do “time do coração”.
Por que omitir uma jogada suja, digna de um cartão vermelho, só para não mudar de time ou simplesmente reconhecer suas faltas? Em nome de uma fidelidade partidária injustificável, muitos eleitores se tornam cúmplices de um sistema político corrompido e aviltante. Ao invés de estabelecerem um diálogo contra-argumentativo em prol do bem comum e da transformação das estruturas políticas ultrapassadas, preferem insultar, ignorar fatos óbvios, amplamente divulgados pelos diversos meios de comunicação existentes. E por falar em meios de comunicação, corroboro que muitos são inescrupulosamente tendenciosos, em sua essência. Estão a serviço dos mesmos interesses escusos de muitos políticos aos quais defendemos, inclusive. Porém, sabemos que nenhum discurso é neutro. Ele é carregado de ideologias, restando-nos identificar aquelas que estão a favor da opressão ou da libertação das consciências. Tomando-se como base as duas concepções durkheimianas de consciência: a coletiva e a individual.
Ademais, Huberto Eco diz, sabiamente, que não se pode pensar em sociedade moderna sem os meios de comunicação de massa. E atribui aos intelectuais e ao cidadão comum (grifo meu) o papel e a responsabilidade de fiscalizá-los. Entretanto, essa fiscalização imparcial precisa alcançar também os nossos políticos. Não podemos sacralizá-los ao lhes declarar nosso voto. Devemos sim, ficar vigilante, cobrar-lhes o cumprimento de suas promessas eleitoreiras, que de forma tão atrativa nos seduzem em momento oportuno.
Deveríamos, antes de nos posicionarmos a favor ou contra Dilma Rousseff ou Aécio Neves, fazermos uma análise tática da atuação de ambos nas partidas políticas desenvolvidas, depois de passarmos por uma competente escola de juízes eleitorais, que nos preparassem para usar o “apito” e marcar a falta exata a cada jogada desleal. Sem medo que nosso time, ao perder pontos, fosse conduzido ao rebaixamento. Afinal, as regras são claras.



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