sábado, 1 de novembro de 2014

A evacuação oral de Diogo Mainardi

                                                 



Sempre achei esse tal de Mainardi um completo babaca. Desde os tempos em que esteve como colunista da famigerada revista Veja, não fez outra coisa senão distribuir impropérios a torto e a direito, se achando no direito de evacuar sentenças torpes por todas as linhas dos textos que escrevia. De repente, quer dizer, bem tarde, desapareceu. Pelo menos não fora mais visto no meu campo de visão. Mas como pessoas indesejáveis sempre ressurgem nos momentos mais impróprios, ele dá o ar de sua (des) graça para endossar o coro dos discursos xenófobos e preconceituosos proferidos contra os nordestinos, pós-eleição presidencial.

Confesso que até então, tudo o que havia lido nas redes sociais a esse respeito, era como se não me dissesse respeito. Achava desnecessário revidar discursos tão ignorantes, de gente imatura e intolerante politicamente. Não valia a pena levar a sério. Esperava que tudo se acalmasse, logo tivéssemos o resultado das urnas apuradas e o nome do novo (a) presidente (a) fosse anunciado. A nossa gente civilizada mostraria o seu valor, pensava ingenuamente. Que nada! As agressões se multiplicaram, se intensificaram e se personificaram. Agressões e insultos dessa vez não partiam apenas de adolescentes com pensamentos ideológicos inflamados, militantes partidários redatores de facebook, mas de gente com notoriedade nacional, a exemplo de desportistas, artistas e outros tantos 'intelectualizados', com voz e vez para destilar um ódio sem precedentes na história desse país, dentre estes, Diogo Mainardi. Dessa vez, a evacuação foi oral, na tela da Globo News, para milhões de expectadores. Sugiro o uso de máscaras capazes de filtrar a repugnância provocada pelo uso abusivo de suas palavras mal ditas.
Caso prefiram, assistam ao vídeo AQUI.

“Essa eleição é a prova de que o Brasil ficou no passado. Não é Bolsa Família, não é marquetagem. O Nordeste sempre foi retrógrado, sempre foi governista, sempre foi bovino, sempre foi subalterno durante a ditadura militar, depois com o reinado do PFL e agora com o PT. É uma região atrasada, pouco educada, pouco construída, que tem uma grande dificuldade para se modernizar na linguagem. A imprensa livre só existe da metade do Brasil para baixo. Tudo que representa a modernidade está do outro lado”, atacou.

Acho chato ter que ficar justificando a grandeza do nosso Nordeste, até porque muitos já o fizeram, e muito bem. Já falaram de nosso potencial turístico, que reúne uma parte da natureza mais exuberante do mundo, do talento abrangente de nossos artistas cênicos, cantores e escritores, da nossa riqueza econômica em tantos segmentos, da originalidade da nossa linguagem, do nosso carnaval exportação, e até das delícias de nossa culinária. Da nossa gente cordial, receptiva, forte, resistente, de nossa bela história. Mas parece que não basta. É preciso mais. É preciso dizer a um Mainardi desses, que não tem formação acadêmica nenhuma, que não se especializou em nada, que é mais cidadão italiano do que propriamente brasileiro, que desconhece a nossa história de luta e resistência política, que VÁ SE INFORMAR! Vá crescer como gente, primeiramente, tomando como exemplo a sua filha portadora de paralisia cerebral, que, como todos os especiais, tem muito a lhe ensinar. Vá se despir de preconceitos, da arrogância que sempre lhe foi peculiar, da síndrome da superioridade burguesa. Feito isso, dê uma olhadinha (que olhadinha, debruce-se sobre eles!) nos livros de História do Brasil, passeie também pela Sociolinguística, para entender as variantes da língua como decorrentes da relação entre linguagem e cultura, tendo como principal referência a obra "Preconceito Linguístico: o que é, como se faz", do linguista Marcos Bagno. 

Feito isso, você que, inicialmente, falava tanto sobre cultura enquanto colunista, e demonstra um conhecimento tão raso sobre a mesma, reveja o cenário musical do nosso país regido pela ditadura militar, e irá encontrar as composições de protesto de Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas e verá que eles são... Than, than, than: nordestinos. Ah, e você que se autodenomina também como roteirista de cinema, te pergunto: conhece Glauber Rocha? Uma síntese dele pra você: baiano e, portanto, nordestino, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela ditadura militar, como elemento subversivo. Inspire-se nele.

Ah, e a Presidenta Dilma Rousseff, reeleita pela maioria do povo brasileiro (não apenas pelos nordestinos), não com minha ajuda, pois assim como muitos, estou insatisfeita com seu governo, atuou na luta armada contra a ditadura militar. Merece nosso respeito, primeiro por ser a nossa representante legítima, e depois por ter a coragem de fazer, na prática, o que muitos barbados só fazem na esfera de um discurso covarde. Foi perseguida, sofreu tortura, juntamente com tantos outros, para que tivéssemos nossos direitos políticos assegurados. Para que hoje pudéssemos dizer abertamente, sem o uso de metáforas, 'afasta de mim esse CALE-SE'!

Fiquei a pensar o que diria Ariano Suassuna, produtor e disseminador da cultura nordestina, ao saber dessas suas declarações, ele que foi o maior defensor dessa cultura, de nossa arte, de nossa gente... Melhor mesmo não sabê-las. No mais, certamente chegará o dia em que alguém pronunciará, em momento oportuno, junto à sua lápide, um dos textos mais conhecidos e incontestáveis produzido por um nordestino:



Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.
(Ariano Suassuna, em: O Auto da Compadecida)

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